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Família · Imobiliário

Morar na casa da família por anos não torna o herdeiro dono

O STJ negou usucapião a uma filha que vivia havia 29 anos no imóvel da mãe falecida. Entenda por que o tempo de moradia, sozinho, não basta e o que isso significa para as famílias com herança ainda não dividida.

Newsletter · 4 out 2026 · 5 min de leitura

Em muitas famílias brasileiras a história se repete. Os pais morrem, um dos filhos continua morando na casa, cuida dela, faz reformas, paga as contas. Os anos passam, o inventário não sai, e os outros irmãos seguem a vida em outro lugar. Um dia, alguém pergunta: afinal, de quem é essa casa?

Para quem ficou, parece natural pensar que o tempo resolveu a questão. Afinal, foram décadas cuidando do imóvel. Mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de lembrar que não é bem assim. Em decisão divulgada em 30 de setembro, a Quarta Turma negou, por unanimidade, o pedido de uma filha e do marido dela que moravam havia 29 anos no imóvel deixado pela mãe e queriam ser reconhecidos como donos por usucapião.

Usucapião é a forma de se tornar proprietário de um bem pelo uso prolongado, como se fosse dono, sem que ninguém reclame. Na modalidade chamada extraordinária, o prazo é de 15 anos, ou 10 quando a pessoa mora no imóvel ou fez nele obras relevantes.

O que o STJ decidiu, em poucas palavras

Como era o caso

Antiga casa de tijolos coberta de vegetação

O casal vivia no imóvel havia quase três décadas, usava a casa como residência e fez obras. Quando pediram a usucapião, os outros herdeiros se opuseram. O Tribunal de Justiça de Alagoas negou o pedido, e o STJ manteve a decisão no processo AREsp 2.983.084, relatado pelo ministro Raul Araújo.

Para o relator, a posse capaz de transformar alguém em proprietário “não se confunde com a simples permanência no imóvel”. Ele também alertou que aceitar a usucapião nesses casos poderia abrir caminho para transferir patrimônio entre pais e filhos fora das regras da herança, prejudicando os demais herdeiros.

Por que isso importa

Família reunida em volta da mesa durante uma refeição

A lei dá a todos os filhos uma parte igual da herança. Quando um deles fica morando na casa dos pais, isso costuma acontecer por um acordo silencioso: alguém precisava ficar, cuidar, manter o imóvel em ordem. Os irmãos confiam que a questão será resolvida no inventário.

Se o simples passar do tempo bastasse para tirar dos outros a sua parte, essa confiança viraria uma armadilha. A decisão protege justamente essa relação de boa-fé entre familiares. O recado é que a gentileza de deixar um irmão morar na casa não significa abrir mão da herança.

Perguntas práticas

Então herdeiro nunca pode usucapir o imóvel da família?

Pode, mas é raro. O próprio STJ já admitiu esse caminho em situações específicas, quando o herdeiro tinha a posse exclusiva, agia claramente como único dono e os demais nada reclamaram durante todo o prazo legal. O ponto central é a prova. Morar, pagar o IPTU e fazer reformas, por si só, não costuma ser suficiente.

E as reformas e despesas que eu paguei?

Elas não se perdem automaticamente. Gastos com conservação, impostos e melhorias podem ser discutidos no inventário ou na divisão do imóvel, para que sejam levados em conta na hora de repartir os valores. Por isso, guardar notas, recibos e comprovantes faz diferença.

Pessoa em uma escada durante a reforma de um cômodo

Os outros herdeiros podem cobrar aluguel de quem mora no imóvel?

Em certas situações, sim. Quando um coproprietário usa o bem sozinho e os demais pedem a sua parte, a Justiça pode fixar um valor proporcional pelo uso. Cada caso depende das circunstâncias, como a existência de acordo entre a família.

O que acontece se ninguém fizer o inventário?

O imóvel continua em nome de quem morreu, e todos os herdeiros seguem como coproprietários. Isso dificulta vender, financiar ou regularizar a casa, e a demora pode gerar multa sobre o imposto da herança (ITCMD) em vários estados. Quando todos são maiores, capazes e estão de acordo, o inventário pode ser feito em cartório, de forma mais rápida.

O que muda para as famílias

Casal assina documentos sobre uma mesa

A decisão não cria uma regra nova, mas deixa a orientação mais clara. Algumas atitudes ajudam a evitar conflitos:

Em resumo

Morar por muitos anos na casa dos pais, com a concordância da família, não transforma o herdeiro em único dono. Enquanto a herança não é dividida, o imóvel é de todos, e o caminho mais seguro continua sendo o inventário.

Fontes

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